24.12.08
Medieval, cada vez uma civilização mais medieval!
Oriente Médio
Quarta, 24 de dezembro de 2008, 16h08

Jordânia: estudantes aderem ao islamismo conservador
Muhammad Fawaz é um universitário muito sério, de olhar severo, e seu sorriso relutante mal consegue ocultar a raiva que sente. Fawaz não queria estudar na Universidade da Jordânia e odeia as horas que gasta viajando para lá a cada dia.
Quando estava no segundo grau, ele sonhava em conquistar uma bolsa e estudar no exterior. Mas isso foi impossÃvel porque lhe faltam wasta (conexões sociais). Na Jordânia, essas conexões são essenciais para subir na vida, e o sistema wasta é mencionado rotineiramente pelos jovens do paÃs como sua principal queixa quanto à situação nacional.
Por isso, Fawaz, 20 anos, decidiu se rebelar. Adotou o aspecto sereno e determinado de um ativista islâmico. No segundo ano de estudos, foi admitido a um grupo de alunos afiliado à Irmandade Muçulmana, o maior e mais influente movimento religioso, social e polÃtico da Jordânia, cujo objetivo último seria ver o paÃs governado de acordo com a lei islâmica, ou shariah. Agora, ele trabalha recrutando novos estudantes para a causa do islamismo.
“Encontrei justiça no movimento islâmico”, diz Fawaz, em uma caminhada por sob os ciprestes do campus da universidade. “Posso me expressar. Não preciso de wasta“.
Em todo o Oriente Médio, jovens como Fawaz - irritados, alienados e privados de oportunidades - aceitaram o Islã como agente de mudança e rebelião. É o seu equivalente do rock, dos cabelos longos e das roupas hippies. Por meio do islamismo, desafiam o sistema, movidos pela vontade de reforma polÃtica e de justiça social. Esse fervor ajudou a popularizar uma interpretação mais conservadora da fé.
“O islamismo, para nós, exerce o mesmo papel que o pan-arabismo exercia para os nossos pais”, diz Naseem Tarawnah, 25 anos, redator e blogueiro que não faz parte do movimento.
As implicações disso em longo prazo devem dificultar os cálculos da polÃtica externa americana, porque podem tornar mais complicado manter o apoio a governos que não permitem que movimentos polÃticos laicos ou religiosos moderados atuem.
Washington também deve encontrar mais dificuldade para manter sua rejeição aos lÃderes de grupos como a Irmandade Muçulmana, no Egito; o Hamas, em Gaza; e o Hezbollah, no LÃbano, que atraem forte simpatia popular.
Os lÃderes dos paÃses muçulmanos tentam apaziguar os sentimentos do público, enquanto fazem todo o possÃvel para desencorajar o Ocidente de iniciar contatos diretos com os movimentos religiosos. Eles vêem a perspectiva de um degelo no relacionamento entre a região e o Ocidente, e consideram esses grupos como ameaça ao seu monopólio sobre o poder. Os governos autoritários consideram uma relativa moderação como desafio polÃtico mais grave que o extremismo, que é um problema de segurança e pode ser enfrentado com métodos mais duros.
“O que acontece se os islâmicos aceitarem o processo de paz e se tornarem mais pragmáticos?”, questiona Muhammad Abu Rumman, editor de pesquisa do jornal Al Ghad, em Amã. “As pessoas os vêem como menos corruptos e como a única oposição verdadeira. Israel e os Estados Unidos podem discordar. O regime teme que a Irmandade venha a se tornar mais pragmática”.
A crise financeira só agrava as ansiedades dos governos do Oriente Médio, que esperavam que o desenvolvimento econômico pudesse apaziguar seus cidadãos, criar trabalho para as legiões de jovens desempregados e subempregados e diluir o apelo dos movimentos islâmicos. Mas a crise e a queda nos preços do petróleo tiveram profundo impacto, forçando uma pausa no boom econômico da região do Golfo Pérsico e no modesto crescimento dos demais paÃses da área.
Nesse ambiente, os governos se vêem forçados a enfrentar uma realidade que eles mesmos criaram. Ao sufocar a democracia e a livre expressão, o único espaço no qual grupos podem se reunir e debater idéias é a mesquita, e os únicos movimentos capazes de prosperar são os religiosos. Hoje, a busca por identidade no Oriente Médio não envolve mais uma tensão entre moderados e religiosos. A religião venceu.
A luta agora gira em torno de definir o que constitui uma sociedade e um governo islâmicos. Zeinah Hamdan, 24 anos, percorreu uma trajetória tÃpica na Jordânia. Ela diz que deseja um governo mais religioso, orientado pela shariah, e começou a usar o véu que protege o rosto das mulheres islâmicas em público mais cedo que qualquer pessoa em sua famÃlia.
Mas, quando estava na faculdade, ela se sentiu ofendida ao ser advertida por um estudante islâmico depois de apertar a mão de um jovem colega. Ela quer ser uma mulher religiosa moderna, e define esse termo como poder trabalhar e manter convÃvio social em ambientes mistos.
“Caso implementemos a shariah, ficaremos mais confortáveis”, disse. “Mas o que poderia acontecer caso as pessoas que venham a conquistar o poder sejam os extremistas?”
Como outras pessoas na Jordânia, ela se sente dividida entre seu desconforto ante o que vê como atitudes extremas da Irmandade Muçulmana e sua alienação quanto a um governo que ela não considera como suficientemente islâmico. “É muito difÃcil ficar no meio”, afirma Hamdan.
The New York Times


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