Mordaz

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21.12.08

A fuga pela via religiosa pela desilusão da religião sem Deus

América Latina

Domingo, 21 de dezembro de 2008, 17h46

Em Guantánamo, cubanos acham refúgio na religião

Confesso que vim a Guantánamo porque assinar um texto jornalístico de um local como esse é mais prestigioso do que uma assinatura como “em Dusseldorf” ou “em Haia”. Como “em Sarajevo” ou “em Gaza”, um texto que vem de Guantánamo atrai mais a atenção dos leitores.

Eu estava em Santiago de Cuba, onde o cinqüentenário da revolução de Fidel Castro será celebrado em 1° de janeiro. Estava quente, e ninguém sabia se Fidel, adoentado, apareceria, ou onde exatamente a celebração seria realizada. Eu pensei que tomaria um carro e iria até Guantánamo, porque nunca se sabe.

Uma noite antes de minha viagem, uma banda se apresentou no terraço de meu hotel tocando Guantanamera, a melancólica melodia sobre a jovem camponesa de Guantánamo. Pensei que era estranho que um local no passado associado a uma história de amor agora evocasse imagens sombrias associadas à guerra de George W. Bush contra o terrorismo.

Guantanamera. Assim que ouvi a canção, não conseguia mais tirar o refrão da cabeça. Será que eu veria por lá uma mulher sedutora e orgulhosa que se enquadraria à imagem que a canção evoca? Jornadas sem destino certo podem trazer surpresas agradáveis. Sim, eu iria mesmo a Guantánamo, para visitar a base naval dos Estados Unidos e o que mais houvesse para ver.

É uma viagem de duas horas, de Santiago, complicada pela ausência de placas nas estradas, uma idiossincracia cubana. Passei sem ver a entrada pela cidade construída em uma encosta, por trás da qual a baía apresenta um brilho prateado refletido pela torre de controle norte-americana que se vê à distância. Que lugar estranho para reunir um bando de iemenitas.

Igreja lotada

Depois de encontrar o retorno para Guantánamo, dei carona a uma mulher que me contou trabalhar em uma prisão de Havana por salário de US$ 20 ao mês, e que estava lá para visitar os filhos, de quem sua mãe estava tomando conta, depois de um doloroso divórcio.

Perguntei se ela pensava em sair do país e ela respondeu que não, mas que gostaria de ter parentes no exterior que lhe enviassem dinheiro. Paramos na praça principal de Guantánamo. Caía a noite. Velhos sentavam-se nos bancos da praça, sob as palmeiras. Atravessei a praça a caminho da igreja de Santa Catarina de Ricci, pintada de branco; as pesadas portas de madeira estavam abertas.

Uma surpresa me aguardava: a igreja estava lotada. Um jovem padre, usando uma batina verde brilhante, estava dizendo a missa. As palavras que me receberam quando entrei foram “la Misa es siempre un encontro com Dios”. Não conheço bem o catolicismo. Mas tive uma sensação física de alívio.

Depois de 10 dias em Cuba, com seus hinos ao heroísmo de Che Guevara, à revolução e ao socialismo, o padre parecia uma figura misericordiosa. Em lugar de deificar Fidel e a utópica perfectibilidade da humanidade, ele falava da falibilidade humana, e do consolo na salvação religiosa.

The Power and the Glory, obra-prima de Graham Greene, me veio à memória, com seu padre condenado observando, da cela, que “quando você visualiza um homem ou mulher cuidadosamente, é sempre possível começar a sentir piedade - essa é uma qualidade que a imagem de Deus porta em si”.

Fiquei como que hipnotizado, parado na porta; as relações entre Cuba e a Igreja Católica melhoraram nos últimos anos, especialmente desde a visita de João Paulo II em 1998. O ateísmo deixou de ser peça central da doutrina revolucionária.

O padre começou a contar a parábola dos talentos. Como um homem rico, ao sair em viagem, deu cinco talentos (uma moeda antiga) a um de seus criados, dois a um segundo e um ao terceiro. O criado que recebeu cinco talentos os investiu bem e dobrou seu capital. O criado que recebeu dois talentos fez o mesmo. O terceiro, temeroso do patrão, enterrou a moeda e nada fez.

Os dois primeiros, com isso, “compartilham da alegria de Nosso Senhor”, e o terceiro, “maligno e indolente”, termina “na mais completa escuridão”. O padre perguntou em que parte da Bíblia estava a parábola. Uma criança levantou a mão e respondeu: “Mateus!”

A criança estava certa. Mas o que dizer sobre essa parábola em uma terra na qual não há coisa alguma em que investir? Será que se tratava de uma parábola sobre o espírito empreendedor, tal como a definiu certa vez o primeiro-ministro conservador australiano John Howard? Um lembrete de que, quando você tem posses, é preciso ampliá-las e que, quando a palavra de Deus lhe é confiada, cabe a você garantir que ela se difunda?

Ou estaríamos falando de uma parábola que fala sobre o custo de resistir à autoridade, de denunciar os maus feitos como o terceiro criado, que define seu patrão como “um mau homem, que colhe o que não semeou?” Será que a parábola se refere à coragem requerida para enfrentar o totalitarismo e seus ricos líderes?

Eu fiquei cogitando a respeito, mas prefiro o mistério a respostas. Já havia visto a prisão norte-americana em Guantánamo. Já havia percebido o sofrimento da mulher a quem dei carona. Havia acabado de deixar o desastre financeiro de Nova York, criado pela cobiça de multiplicar posses, e chegado ao desastre econômico de Cuba, gerado por um regime comunista que se recusa a encarar a realidade.

Sim, piedade. E se o padre tinha o poder de transformar a hóstia na carne e sangue de Cristo, e se as pessoas ali reunidas acreditavam nele e se consolavam com a cerimônia, eu me sentia pronto a inclinar a cabeça em silêncio. E era por isso, aparentemente, que eu tinha de ir a Guantánamo.

Tradução: Paulo Migliacci ME

criado por bandarra    18:20 — Arquivado em: Falsidades, Fundamentalismo, Intolerância, humanismo

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