Mordaz

Este espaço tem uma visão crítica da ciência, do humanismo e do laicismo como base para as relações do homem com a natureza e das relações dos homens entre si. Este tripé é a base das relações sociais que devem ser usadas.

1.3.08

O outro lado da moeda

ZERO HORA 25 de fevereiro de 2008 | N° 15521
Discutindo Deus
Paulo Sant’ana

Quando sentei nas mesas de bares ou de beiras de piscinas, durante as férias, instalei nesses lugares, naturalmente, uma mesa de consulta ao avatar, eu ali à disposição dos passantes e dos parantes, indefeso.

E eles me perguntando sobre tudo, os mais diferentes assuntos. E eu vou despachando com todos, sacio as suas curiosidades, uns além de falar comigo têm necessidade de me tocar. Acabam num retoço esses encontros de conhecimento entre o cronista e seus leitores. É uma bela forma de a gente conhecer e privar com os alvos do que se escreve, os verdadeiros objetivos do trabalho da gente, os leitores.

* * *

Dou um exemplo de uma dessas consultas que dei esses dias. O senhor se aproximou de mim e da roda que me cercava. E foi atirando logo sua pergunta: "Tu acreditas em Deus mesmo?".

Não sei como eu estava com a resposta na ponta da língua: "Eu acredito cegamente em Deus. Ele é que, pelas últimas amostras do que tem acontecido comigo, não acredita muito em mim".

Estourou como uma bomba na roda a minha resposta, sob o ribombar de gargalhadas.

* * *

Este tema de Deus é fascinante, além de me perguntarem muito sobre ele, eu gasto inúmeras horas da semana a matutar sozinho sobre a existência de Deus.

O mais elucidativo dado que já colhi sobre a existência de Deus foi o pensamento incrível, me parece que de Dostoiévski: "Se Deus não existe, tudo é permitido".

Como que a insinuar brilhantemente que se a idéia de Deus consiste em justiça, até mesmo em bondade, em sabedoria, em compreensão, se ele não existir, todos esses valores caem por terra.

Ou seja, não existindo Deus, é permitido o estupro, o roubo, a agressão, o homicídio, enfim todas as calamidades da conduta humana.

Todos podem deitar e rolar com suas maldades, que não os atinge nenhuma punição, não estão nem aí.

Mas, existindo Deus, ele se constitui num freio para a maldade e para a destruição. As religiões nada mais são do que isso, uma forma inteligente de domesticar o homem e encaminhá-lo para a bondade, para o amor ao próximo, para a solidariedade e para a caridade, a ajuda aos outros, uma forma de tornar a vida mais suave no seu círculo gregário.

Dostoiévski deu uma grande, colossal, colaboração para a interminável discussão sobre a existência de Deus.

* * *

Podemos raciocinar do outro lado da moeda! Afinal, o que se está apelando é para o medo da pessoa e não o reconhecimento das suas qualidades morais. A pessoa não é recompensada por ser boa ou caridosa, mas porque finge por temor a Deus que é para não sofrer castigo nesta ou em uma vida da qual ninguém retornou ou se possui prova alguma de que ela exista. Por sinal, imaginada de milhares de formas, pois são criadas na nossa capacidade de fantasia, e não o resultado de informações verdadeiras.

Tudo não seria possível porque Deus castiga! Mas não existem provas de que isto ocorre nem nestas vida e nem no outro lado. O que leva os espiritistas alegarem a reencarnação para alegar que quem sofre aqui é para resgatar as dívidas pelos males que fez em outras. Tudo também partido apenas de alegações mirabolantes sem provas! Ou seja: tudo é permitido mesmo. Não será Deus que impedirá! Mas como as pessoas que são vítimas não são protegidas dos crimes? Deus é fiel a quem então? Por que sendo vítima de um assassino, basta para a pessoa ir para o céu? E o seus pecados? Até o Limbo o Papa reconheceu que era lorota apenas. Como fica então a vítima que poderia ser pecadora e não teve tempo para se redimir?

Em outras palavras, tudo realmente é possível e nada inibe o agressor a não ser a sua livre e expontânea vontade sobre a vítima. A única coisa que tapeia é a ação do homem em condenar o crime e o criminoso se este for pego e identificado, e não conseguir, como muito freqüentemente acontece, este escapar da punição pelas falhas do sistema! Nenhuma tragédia, terremoto, incêndio, enchente, maremoto, naufrágio poupa os inocentes e condena os culpados! Quem vence é o exército mais forte, não o mais justo! Prisões se enchem de quem pode livremente praticar o mal, sem impedimentos reais, e cemitérios de vítimas tolhidas pelos malfeitores sem alguém que as protejam.

criado por bandarra    21:52 — Arquivado em: Ateologia

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