Mordaz

Este espaço tem uma visão crítica da ciência, do humanismo e do laicismo como base para as relações do homem com a natureza e das relações dos homens entre si. Este tripé é a base das relações sociais que devem ser usadas.

14.2.08

Golpes disfarçados

ZERO HORA 13 de fevereiro de 2008 | N° 15509

Artigo

Igrejas, por Cândido Norberto

Repito hoje, por oportuna, uma sugestão que já andei dando: se um dia você, leitor, se sentir em dificuldades tais que o levem a pensar em soluções desesperadas, não vacile: redija um estatuto e funde uma sociedade de fins civis e religiosos. A essa entidade batize com uma denominação que envolva o nome de Deus. Ou de seu filho, Jesus. Escreva que a nova instituição terá por objetivo divulgar a fé cristã e propalar o velho e o novo testamentos. Para sócios fundadores, convide não mais do que cinco pessoas de qualquer profissão. Ou mesmo sem profissão alguma. Distribua as funções de presidente, vice, 1º e 2º secretários e de tesoureiro.

Em artigos e incisos seguintes, estabeleça que todos os membros da instituição não participarão das suas rendas (contribuições que vier a receber). Abra, porém, uma exceção: o presidente. Que será você mesmo. E que se qualificará como sendo, por exemplo, espiritualista-vidente.

A seguir, esclareça que somente o presidente - você! - receberá verba de representação e ajuda de custo, cabendo-lhe, com exclusividade, abrir e movimentar contas bancárias. E também advertir, suspender e expulsar qualquer membro da corporação, inclusive da diretoria.

Isso posto, leve o original dos estatutos ao cartório de títulos e documentos, no qual, na forma da lei, que é risonha e franca para esses assuntos, serão devidamente registrados. Após, publique-os no diário oficial do Estado. Com procedimentos tais, você estará oficialmente reconhecido como chefe espiritual de uma nova igreja. Que nem precisará ser nacional ou universal; se for municipal ou mesmo distrital, servirá.

A partir daí você estará em condições de, em sua própria casa ou em outro local qualquer, começar a arregimentar fiéis. E a fazer, ou melhor, a prometer milagres de todo gênero. Como, por exemplo, curar todas as doenças, Aids e câncer nelas incluídas; resolver problemas como desemprego, desavenças conjugais, amores mal correspondidos, maus-olhados e quantos lhe forem solicitados pelos seus seguidores. Em troca, poderá pedir contribuições financeiras, porque, afinal, como se sabe, é dando que se recebe. De resto, como ficou registrado em cartório, você não é um sujeito qualquer, mas sim um espiritualista-vidente. Como tal, com habilidades, você progredirá e, em breve tempo, poderá estar propagando sua fé e anunciando seus milagres em espaços de rádio e tevê devidamente alugados.

Minha receita é essa. Não a inventei. Tomei-a de empréstimo de um estatuto pelo qual foi formalmente registrada em cartório uma das mais novas igrejas, ou religiões, que funcionam no município de Viamão. Tudo segundo os conformes da lei no duro.

CÂNDIDO NORBERTO | Jornalista

criado por bandarra    17:56 — Arquivado em: Falsidades

2 Comentários »

  1. Comentário por Ênio Cavalcanti — 11.4.08 @ 9:10

    Adorei a receita, se não fosse católico convicto, adotaria sua idéia e fundaria uma igrejinha qualquer de fundo de quintal…
    Essa história de liberbade religiosa banalizou o verdadeiro sentido de religião!
    Parabéns pela matéira.
    Posso copiar e postar no meu blog?
    Abraço!

  2. Comentário por Mordaz — 12.4.08 @ 8:15

    O texto foi tirado da Zero Hora. É claro que pode divulgá-lo colocando a fonte: Zero Hora e o autor, o jornalista Cândido Norberto. Como é edição impressa, não possui link! Abraços

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