Mordaz

Este espaço tem uma visão crítica da ciência, do humanismo e do laicismo como base para as relações do homem com a natureza e das relações dos homens entre si. Este tripé é a base das relações sociais que devem ser usadas.

18.2.08

Proteção de quem


Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2008

Pastor foi baleado em frente à igreja, quando conversava com jovens
O pastor evangélico Sinval Alves foi atingido por três tiros de fuzil no rosto, quando conversava com um grupo de jovens em frente a uma igreja dentro da Favela do Dique, de acordo com o presidente da Associação de Moradores da comunidade. Além dele, Daniele Fernandes, de 23 anos, foi atingida no joelho por uma bala perdida. O pastor parou para falar com os rapazes antes de iniciar o culto.

18/2/2008

Mulher leva tiro na boca ao sair da Igreja Batista do Méier

Ela reagiu à tentativa de roubo de carro

Rio - Heth Neto da Costa, de 53 anos, foi baleada na boca na noite deste domingo, quando saía da Igreja Batista do Méier, na Rua Getúlio, Zona Norte. O caso ocorreu por volta das 21h.

Ela foi abordada por dois homens que tentaram levar o seu carro. Heth tentou escapar e acabou sendo baleada na boca. Logo em seguida, os bandidos roubaram o carro de uma amiga, que também saía da mesma igreja. Apesar de ferida, Heth dirigiu até o Hospital Salgado Filho. Em seguida, foi transferida para o Hospital Pasteur, também no Méier.

criado por bandarra    17:25 — Arquivado em: Falsidades

14.2.08

Golpes disfarçados

ZERO HORA 13 de fevereiro de 2008 | N° 15509

Artigo

Igrejas, por Cândido Norberto

Repito hoje, por oportuna, uma sugestão que já andei dando: se um dia você, leitor, se sentir em dificuldades tais que o levem a pensar em soluções desesperadas, não vacile: redija um estatuto e funde uma sociedade de fins civis e religiosos. A essa entidade batize com uma denominação que envolva o nome de Deus. Ou de seu filho, Jesus. Escreva que a nova instituição terá por objetivo divulgar a fé cristã e propalar o velho e o novo testamentos. Para sócios fundadores, convide não mais do que cinco pessoas de qualquer profissão. Ou mesmo sem profissão alguma. Distribua as funções de presidente, vice, 1º e 2º secretários e de tesoureiro.

Em artigos e incisos seguintes, estabeleça que todos os membros da instituição não participarão das suas rendas (contribuições que vier a receber). Abra, porém, uma exceção: o presidente. Que será você mesmo. E que se qualificará como sendo, por exemplo, espiritualista-vidente.

A seguir, esclareça que somente o presidente - você! - receberá verba de representação e ajuda de custo, cabendo-lhe, com exclusividade, abrir e movimentar contas bancárias. E também advertir, suspender e expulsar qualquer membro da corporação, inclusive da diretoria.

Isso posto, leve o original dos estatutos ao cartório de títulos e documentos, no qual, na forma da lei, que é risonha e franca para esses assuntos, serão devidamente registrados. Após, publique-os no diário oficial do Estado. Com procedimentos tais, você estará oficialmente reconhecido como chefe espiritual de uma nova igreja. Que nem precisará ser nacional ou universal; se for municipal ou mesmo distrital, servirá.

A partir daí você estará em condições de, em sua própria casa ou em outro local qualquer, começar a arregimentar fiéis. E a fazer, ou melhor, a prometer milagres de todo gênero. Como, por exemplo, curar todas as doenças, Aids e câncer nelas incluídas; resolver problemas como desemprego, desavenças conjugais, amores mal correspondidos, maus-olhados e quantos lhe forem solicitados pelos seus seguidores. Em troca, poderá pedir contribuições financeiras, porque, afinal, como se sabe, é dando que se recebe. De resto, como ficou registrado em cartório, você não é um sujeito qualquer, mas sim um espiritualista-vidente. Como tal, com habilidades, você progredirá e, em breve tempo, poderá estar propagando sua fé e anunciando seus milagres em espaços de rádio e tevê devidamente alugados.

Minha receita é essa. Não a inventei. Tomei-a de empréstimo de um estatuto pelo qual foi formalmente registrada em cartório uma das mais novas igrejas, ou religiões, que funcionam no município de Viamão. Tudo segundo os conformes da lei no duro.

CÂNDIDO NORBERTO | Jornalista

criado por bandarra    17:56 — Arquivado em: Falsidades

1.2.08

Nossos lideres… despreparados

Ciência sob ataque

Se eu fosse exagerado, diria que a ciência brasileira está sob ataque. Como não sou, parece mais adequado afirmar que ela vem enfrentando percalços imprevistos. Há duas semanas a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, participou de um evento criacionista e, em seguida, defendeu o ensino de teorias "alternativas" ao darwinismo. Poucos dias depois, reportagem da Folha (só para assinantes) mostrava que cerca de uma centena psicólogos, advogados, antropólogos e educadores procurava, através de um abaixo-assinado, impedir um grupo de neurocientistas de levar a cabo pesquisa que pretende esquadrinhar o cérebro de 50 adolescentes homicidas de Porto Alegre em busca de marcadores biológicos. 

….

O inquietante no caso brasileiro é que os ataques partam, senão de aliados, ao menos de grupos e instituições que deveriam em tese apoiar a ciência. Afinal, Marina Silva, na condição de ministra, representa o Estado brasileiro. Já psicólogos, antropólogos e pedagogos, embora não costumem militar nas fileiras da "hard science", são –ou deveriam ser– aquilo que antigamente chamávamos de "Geistwissenschaftler", ou seja, simplificando um pouco, cientistas sociais, os quais deveriam, pelo menos etimologicamente, estar comprometidos com o método científico.

…..

Qualquer que seja nossa posição pessoal, quer acreditemos que a vida é um dom de Deus, quer a consideremos o encontro inopinado de átomos de carbono com um pouco hidrogênio e oxigênio, não faz muito sentido que um cientista social –ou qualquer outra pessoa minimamente ilustrada– se oponha à realização de um experimento capaz de ampliar nosso conhecimento por temor das implicações que tal conhecimento possa ter. Se os nossos solertes "Geistwissenschaftler" estão tão certos de que a empreitada dos neurocientistas dará com os burros n’água –possibilidade bastante real– que critiquem, como convém ao método científico, os resultados do experimento, não sua realização. Se estão tão certos de que a neurociência encerra o ovo da serpente, que o demonstrem com base em evidências e encadeamentos lógicos, não com ilações e palavras de ordem. Minha sensação é a de que essa gente, ao defender a proibição pura e simples, repete os argumentos com os quais a Igreja Católica impedia a dissecação de cadáveres e promovia outros vetos francamente obscurantistas.

Voltemos agora ao mais delicado caso do criacionismo ministerial. Marina Silva tem, como cidadã, o direito de professar a fé que bem desejar. Mais até, não é porque se tornou ministra de um Estado nominalmente laico que precisaria deixar de comparecer aos cultos de sua igreja, a Assembléia de Deus. Ela, entretanto, avançou o sinal quando participou do 3º Simpósio sobre Criacionismo e Mídia, promovido pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo, e, à saída, ainda deu uma entrevista na qual, no melhor estilo dos "neocons" dos EUA, sustentou que visões de mundo criacionistas devem ser ensinadas nas escolas, para que os alunos possam decidir por si mesmos.

Estamos aqui diante de dois problemas. Em primeiro lugar, Marina deveria ter-se recusado a participar do evento, pela simples razão de que não foi convidada para falar na condição de simples fiel da Assembléia, ou teóloga, mas sim por ser ministra do Meio Ambiente, ou seja, uma representante do Estado. E, nos termos do artigo 19 da Constituição, é vedado ao Estado "estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança". Essa, entretanto, é a falta menos grave, que seria facilmente perdoável, se a ministra não tivesse em suas declarações abraçado também a pedagogia ultraconservadora, que pretende transformar fatos comprováveis em comprovados em questões abertas a escrutínio religioso.

Não conheço as opiniões hidrostáticas do papa, mas não importa o que ele pense ou decrete acerca da fervura da água, o fato é e será que, em condições normais de temperatura e pressão, ela ferve a 100ºC. De modo análogo, independentemente do discurso religioso, as bases gerais da teoria evolutiva mais ou menos como postulada por Charles Darwin no século 19 estão cabalmente comprovadas. Falácias criacionistas não vão mudar isso. O rol de evidências pró-Darwin é extenso. Vai da totalidade do registro fóssil até aqui coletado –e nunca falseado por nenhum despojo geologicamente impossível_ até a capacidade de fazer previsões sobre o futuro, como o surgimento de cepas de bactérias resistentes a novas classes de antibióticos.

O criacionismo em sua mais nova roupagem –o tal do design inteligente– sustenta que a evolução é "apenas" uma teoria e cheia de supostas dificuldades, como se tudo em ciência não fosse "apenas uma teoria", aí incluída a teoria da gravidade. Seu argumento básico é o de que seres vivos são complexos demais para ter surgido "por acaso": se eu encontro um relógio, a sutileza e a precisão das roldanas e engrenagens, me autoriza a supor um relojoeiro; de modo análogo a arquitetura de estruturas como asas e olhos permitiria inferir um Criador.

"Non sequitur", que, em bom português, significa: é pura bobagem, coisa de quem não entendeu (ou fingiu que não entendeu) o bê-á-bá do darwinismo. Embora mutações nos seres vivos de fato ocorram aleatoriamente, a seleção subseqüente –que conserva o que é útil e despreza o que não o é– nada tem a ver com acaso. Ela é, se quisermos, o avesso do acaso. Trata-se, na verdade, de um dos poucos processos naturais que conseguem simular o trabalho de projetistas. Só que funciona ao contrário. Ao preservar traços mesmo que milimétricos de utilidade e descartar todas as mutações que não servem para nada (a maioria delas resulta em cânceres, é oportuno lembrar), a seleção consegue, ao longo de inúmeras gerações, produzir estruturas que passam por entidades concebidas por uma inteligência.

O que o criacionismo faz é, apoiando-se nessa ilusão, impingir raciocínios capengas que soarão convincentes a alunos com pouco treinamento epistemológico e já socialmente orientados a "aceitar a palavra de Deus". Admitir que padres e pastores profiram tais sandices em epistemológicas em seus templos é uma necessidade democrática. Mas não faz nenhum sentido repeti-las nas salas de aula de um Estado laico. Fatos sobre o mundo não são matéria que se decida com base em convicções pessoais ou maiorias.

E, infelizmente, os neocriacionistas não se contentam em acreditar em Deus. Querem, sabe-se lá por qual motivo, revestir seu delírio de vestes científicas. Só que estas não lhe cabem.

O grande erro da comunidade científica norte-americana foi ter esperado tempo demais antes de reagir às investidas criacionistas, deixando que o discurso pseudocientífico e aparentemente democrático prosperasse e ganhasse terreno. Infelizmente, nós, no Brasil, estamos repetindo esse equívoco. Vale lembrar que o pio casal Garotinho já introduziu o ensino do criacionismo nas escolas da rede pública do Rio de Janeiro. Consertar as coisas agora será um deus-nos-acuda.

Não deixa de ser irônico que os mesmos sociólogos, advogados e psicólogos que até há pouco se erigiam em defensores máximos das liberdades agora propugnem pela censura a pesquisas, e os mesmos religiosos criacionistas que poucos séculos atrás queimavam livros e pessoas agora recorram à liberdade de pensamento para apregoar tolices na escola pública. Não acredito em deuses, mas, é forçoso reconhecer que eles têm um senso de humor infernal.

Hélio Schwartsman

criado por bandarra    16:41 — Arquivado em: Fundamentalismo

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