27.10.07
A força para sobreviver


A tragédia dos Andes aconteceu no dia 13 de outubro de 1972, quando o avião militar modelo Fokker F27 Friendship Fairchild F-27/FH-227, da Força Aérea Uruguaia, caiu na cordilheira, após uma escala em Mendoza, na Argentina. Vinte pessoas morreram no momento do acidente.
Após a suspensão das buscas ocorreu uma avalanche que matou outros oito passageiros, deixando vivas 19 pessoas que sofriam com a falta de alimentos.
Nos dias seguintes, outros três morreram por causa dos ferimentos sofridos e o enfraquecimento por falta de alimentos. Sessenta dias depois da queda do avião, Canessa e Fernando Parrado, dois dos 16 sobreviventes, começaram uma caminhada para tentar chegar a alguma região habitadas e depois de dez dias encontraram Catalán, que alertou as autoridades. No dia 23 de dezembro de 1972, dois meses depois do acidente, os sobreviventes retornaram ao Uruguai.
Fernando Seler Parrado Dolgay, Fernando Parrado, o Nando, passou três dias inconsciente antes de despertar e descobrir que o avião que levava sua equipe de rúgbi para jogar um amistoso integrantes de uma equipe de rúgbi de Montevidéu, o Old Christians, contra os Old Boys, do Chile.
Roberto Canessa, hoje com 54 anos e cardiologista,
Há um momento do livro que parece revelador: "A premente necessidade que me impulsionava a caminhar para o oeste era a mesma que levaria alguém a pular de um edifício em chamas. Com que lógica você sabe que chegou o momento de saltar para o vazio? Naquela manhã, eu soube a resposta. Sorri para Carlitos (Páez Vilaró) e depois me virei antes que ele pudesse ver a angústia em meus olhos. Meu olhar se fixou por um longo momento no montículo de neve amolecida que marcava o lugar em que minha mãe e minha irmã estavam enterradas".
Aquele momento… Aquele momento foi decisivo. Eu o simplifico. No tempo posterior à morte de Susana e de mamãe, reprimi todo o impulso emocional. "Se eu morrer", lembro de ter pensado, "meu pai nunca saberá como a consolei e como lhe dei calor, e o quão tranqüila parecia em sua tumba de gelo".
A partir daquele momento, tudo foi vertigem. Dez dias no limbo ou no inferno. Dois alpinistas debilitados, estressados e consumidos pela angústia, a mais de três mil metros de altura e sem equipamentos, a uma temperatura devastadora.
Meus batimentos cardíacos dispararam, o sangue ficou espesso, a freqüência respiratória se acelerou até a hiperventilação e a umidade que eu perdia ao expulsar o ar me desidratava. Estávamos com sede, o tempo todo. Não havia gelo que a saciasse.
Essa era a situação quando começou a parte mais escura e incerta da viagem. Privados de orientação segura, tudo se reduzia a escalar e viver, ou tropeçar e morrer.
Jamais estive tão concentrado. A minha mente, minha cabeça, nunca mais voltou a experimentar uma conexão tão íntima com minha animalidade. Não sei como dizer isso. Mas me esqueci de mim mesmo. Eu não era eu. Eu era minha família e todos os amigos que esperavam. Perdi o medo (estava aterrorizado). Perdi o cansaço (estava esgotado). Era um desejo, um desejo de escalar, atravessar a montanha, descer a planície. Foi um momento único, inesquecível. Se tenho que pensar em Deus, Deus me invadiu naquele momento. Estava vivo, mas vivo de verdade, a vida fluía. E eu esperava. Só alguns dias depois nos sentimos arrasados.
Isso aconteceu quando enviaram o terceiro acompanhante de volta ao avião, ficaram com sua comida e apostaram forte no rumo oeste, o mesmo que insistiram para que o amigo que voltaria memorizasse. Seguiam uma intuição, e uma vaga sombra de que abaixo se abria um vale. Mas sim, lá se abria o vale, um rio, algumas vacas e finalmente, ao longe, um camponês, um tropeiro que na manhã do décimo dia, os colocou em contato com o resto do mundo.

Roberto Canessa, hoje com 54 anos e cardiologista, Fernando Parrado, o Nando
Com Roberto, anos depois, tentamos refazer aquele caminho de volta, do lugar onde nos encontraram até o avião, com todos os requisitos de segurança exigidos para um percurso naquele terreno e naquelas condições, descansados, alimentados e equipados. Ainda assim, foi impossível. Não pudemos. Estávamos sendo acompanhados por uma equipe de apoio. Ela nos recolheu e nos colocou em um helicóptero. Não sei como fizemos. Dessa vez me lembro que chorei sem parar. De uma vez, tudo escureceu e clareou. Mas nunca pude explicar como fizemos, então, para chegar ao nosso destino.

10/10/2002 - 17h19
Sobreviventes dos Andes refazem viagem aérea 30 anos depois
Quinta, 18 de outubro de 2007
Após 35 anos, sobrevivente dos Andes fala
Teria Deus matado 24 pessoas para mostrar a sua fidelidade a estes dois homens? Por que Deus não foi fiel aos outros que pereceram e aos seus familiares que sofrem com as suas perdas?
Certamente o motivo da sobrevivência se deve a juventude e a vontade de viver, coisa que anos depois eles não mais tinham ao tentar refazer dez dias de caminhada cansativa, mais velhos, e sem a premência de continuar vivos! Instinto que até animais apresentam em situações extremas também!




criado por bandarra
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